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O "Plano Real" dos juros no Brasil é uma aposta fiscal, não uma promessa

Uma carta de mais de 380 líderes empresariais quer a Selic em 7,5% até 2027. A meta só é crível se o próximo presidente definir antes as regras fiscais.

Publicado
22 de outubro de 2026
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4 min
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Foto: Thomas Hobbs / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Uma carta consegue baixar os juros? Claro que não. Mas uma carta que condiciona o corte de juros a um compromisso fiscal ao menos aponta para a alavanca certa, e isso já é mais do que a maioria dos slogans de campanha consegue.

O documento é do Grupo Parlatório que, segundo o Valor International, reúne mais de 380 líderes empresariais e representantes da sociedade civil, com o economista Roberto Giannetti da Fonseca coordenando o trabalho técnico. A carta pede que Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro se comprometam com um "Plano Real" para os juros: taxa básica de 7,5% ao ano e inflação de 3% até dezembro de 2027. As âncoras fiscais são um superávit primário de pelo menos 1% do PIB em 2027 e dívida bruta do setor público abaixo de 70% do PIB até 2030. A campanha de Lula deveria receber a carta na quinta-feira; Giannetti disse que a campanha de Bolsonaro não havia confirmado de imediato o recebimento.

A meta de 7,5% é slogan; a parte fiscal é o plano

Olhe a distância entre a carta e os analistas. Segundo a BNamericas, a Fitch espera que a Selic, hoje em 13,75%, caia apenas para 11,75% até o fim de 2027, embora diga que os cortes podem ser mais rápidos se houver um ajuste fiscal significativo. Outra casa, a Buy Side Brazil, revisou sua projeção para 11,0%. Nenhuma chega perto de 7,5%.

São cerca de 3,5 a 4,25 pontos percentuais de diferença. Achamos um erro ler os 7,5% como previsão. É melhor entendê-los como a recompensa por um resultado fiscal muito ambicioso que, até onde podemos ver nas informações disponíveis, ninguém diz estar sobre a mesa. A lógica da carta é sólida: perspectivas críveis para as contas públicas reduzem o custo para o Tesouro e aliviam a pressão inflacionária. Mas a lógica corre em uma só direção. Primeiro vem a credibilidade fiscal, e os juros menores vêm depois.

Credibilidade é o ativo escasso, e campanha não a imprime

O ponto de partida é duro. A Fitch afirma que, seja quem for o vencedor, espera aperto fiscal no próximo ano, porque o déficit orçamentário passa de 8% do PIB e a dívida pública ultrapassou 80% do PIB. Uma análise do Atlantic Council argumenta que décadas de baixa credibilidade fiscal mantêm o Brasil pagando juros altos, e que o país afrouxou os gastos repetidamente depois de períodos de contenção, incluindo um teto de gastos e uma reforma da previdência. Esse histórico explica por que uma promessa, mesmo assinada por centenas de nomes respeitados, não move os mercados sozinha.

Os mercados parecem entender isso. A BNamericas observa que as ações brasileiras e o real se valorizaram depois que o primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente, e um estrategista citado, Luciano Rostagno, da EPS Investimentos, diz que os agentes veem maior chance de controle de gastos sob ele. Mas o mesmo estrategista alerta que os ganhos podem perder força se planos claros e concretos para reduzir a dívida não vierem rápido. Em outras palavras, os investidores parecem estar precificando esperança, não entrega. É um lugar frágil.

O que o investidor deve fazer com isso

Não compraríamos a história de uma Selic a 7,5%, e nada aqui deve ser lido como recomendação pessoal de investimento. Trataríamos o corte de juros como um resultado a ser verificado. Os pontos de checagem úteis são concretos: se o vencedor anunciar cedo, em 2027, uma meta de superávit primário e contenção de gastos, se o orçamento refletir isso, e se as expectativas de inflação de prazo mais longo, que a Buy Side Brazil coloca perto de 3,5%, se aproximarem da meta de 3%. Esses são os sinais que justificariam um ciclo de afrouxamento mais rápido. Retórica de campanha, não.

Há também uma ressalva sobre a própria carta. Ela abrange 14 áreas de política pública, de indicações para o Supremo a restauração de florestas e gastos militares de 2% do PIB. Na nossa avaliação, parte dessa lista aumenta a pressão por gastos enquanto o destaque pede superávit. Um documento que tenta agradar a todos corre o risco de diluir o único compromisso que importa.

Nosso veredito: a carta é útil como pressão, e o enfoque de começar pelo fiscal está correto. Mas a Selic vai cair porque os números mudam, não porque dois candidatos assinam um compromisso. Até que o próximo presidente ponha na mesa uma regra fiscal vinculante, ancoraríamos as expectativas nos cerca de 11% a 11,75% dos analistas para o fim de 2027, e não nos 7,5% da carta.

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