A conta de correções do Mythos no Bank of America é um novo item de custo
Contratar 1.000 terceirizados para corrigir falhas expostas por um modelo de IA sugere que a descoberta de vulnerabilidades vira custo recorrente para bancos. Quem faz esse orçamento?
Imagem gerada por IA
Um modelo de IA que encontra os seus bugs é uma ferramenta de produtividade ou uma conta? Para o Bank of America, a resposta neste trimestre foi: os dois, e a conta chegou primeiro.
Eis o que sabemos. O presidente-executivo, Brian Moynihan, disse à CNBC que o banco colocou 1.000 terceirizados no segundo trimestre para corrigir falhas de software expostas por modelos avançados, entre eles o Mythos, da Anthropic. O The Register também noticiou a contratação extra. Os terceirizados continuam no trabalho, além das cerca de 3.000 pessoas que já atuavam nessa área. No terceiro trimestre, o banco gastou "algumas centenas de milhões, ou mais" com correção de software e questões de conformidade de prevenção à lavagem de dinheiro somadas. As ações chegaram a cair 8% naquele dia.
A mensagem de Moynihan aos investidores foi de que isso é temporário: "Depois que você corrige, não precisa corrigir tanto. (…) O fluxo vai passando". O banco espera que os custos de correção diminuam com o tempo.
O argumento do gasto pontual merece ceticismo
Torcemos para que Moynihan tenha razão, mas ainda não apostaríamos nisso. Um estoque de falhas antigas acaba se esgotando. O que as encontrou não desaparece. A CNBC observa que o Mythos foi lançado em abril para um pequeno grupo de bancos, empresas de tecnologia e órgãos do governo, e que modelos assim conseguem descobrir e explorar falhas de software de décadas. Se as ferramentas continuarem melhorando e outros tiverem acesso a similares, o ritmo de descoberta passa a ser uma característica permanente de possuir grandes volumes de código.
Essa é a nossa leitura, não algo dito por Moynihan ou pela CNBC. Mas repare na lógica das próprias palavras dele: "Temos de ficar à frente deles". Ficar à frente não é um projeto com data para acabar. Parece uma função permanente, mais próxima de aluguel do que de reforma.
Repare também que os 1.000 terceirizados continuam lá meses depois. Mão de obra temporária que dura mais de um trimestre é como os custos recorrentes costumam começar.
A linha é borrada, e esse é o verdadeiro problema do investidor
O valor divulgado mistura correção com trabalho de conformidade de prevenção à lavagem de dinheiro. Não dá para saber quanto das "algumas centenas de milhões, ou mais" tem relação com o Mythos. Isso importa, porque um custo que você não consegue isolar é um custo que não consegue projetar, e um gestor a quem não se pode perguntar "quanto no ano que vem?" tem facilidade para dizer que ele vai cair.
A CNBC descreve esses comentários como alguns dos primeiros de uma grande empresa americana a especificar pessoal e dólares para esse tipo de trabalho. Isso faz do Bank of America um ponto de dados inicial útil e também um lembrete de que os concorrentes falaram pouco. Silêncio não é o mesmo que ausência de gasto. Ficaríamos surpresos se outros grandes bancos, com código legado extenso e muitos fornecedores, enfrentassem um problema radicalmente diferente.
Quem faz o orçamento é a pergunta a fazer
Moynihan também apontou uma dependência incômoda: as pessoas que desenvolvem o software são as que tentam vender os serviços aos bancos. O banco está corrigindo o próprio código e o de fornecedores, o que significa que parte da conta pode acabar sendo negociada com fornecedores que também querem vender a solução.
Enquanto isso, a história da economia é real, mas separada. O banco tem cerca de 130 projetos internos de IA, com economia esperada subindo de US$ 300 milhões este ano para US$ 700 milhões em 2027, e o quadro de funcionários caiu cerca de 3.400 no último ano. A CNBC diz que não está claro quanto disso se deve à IA. A versão arrumada da narrativa é que a economia com IA paga a defesa contra IA. Trataríamos isso como hipótese. Um banco pode muito bem registrar ganhos de produtividade em um departamento enquanto os custos de defesa ficam em tecnologia, risco ou conformidade, sem que ninguém seja dono do número líquido.
Então o que um acionista deve fazer? Não entrar em pânico, nem aceitar o rótulo de "temporário" de olhos fechados. Nas teleconferências de resultados, faça três perguntas simples: quanto do gasto com correção está ligado a falhas descobertas por IA, qual quadro de pessoal se espera daqui a um ano e qual executivo é responsável pelo número combinado de economia e defesa com IA. Isto é análise, não recomendação de investimento, e um trimestre não resolve nada.
Nosso veredito: os 1.000 terceirizados importam menos como número do que como sinal. A segurança em IA saiu da pauta do comitê de risco e virou item de orçamento, e os bancos que souberem mostrar quem responde por ela merecerão mais confiança do que os que a chamam de gasto pontual.
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