O segundo turno já está precificado na curva: não aposte em um vencedor
Com a disputa em empate técnico e a taxa para janeiro de 2028 perto de 12,9%, o mercado já pende para um candidato. Para quem poupa, vale mais misturar prefixados e títulos atrelados à inflação.
Foto: Superior Electoral Court of Brazil / Wikimedia Commons (Public domain)
A operação mais perigosa deste fim de semana é a que parece uma previsão. A curva de juros do Brasil virou uma pesquisa diária do segundo turno presidencial, e quem compra renda fixa como se o resultado já fosse conhecido está fazendo uma aposta política, não tomando uma decisão de poupança.
Veja o que mostram os números. Depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno em primeiro lugar, a taxa do DI para janeiro de 2028 caiu forte: recuou 99 pontos-base naquela semana, enquanto a taxa para janeiro de 2035 caiu 176. Depois, as pesquisas se apertaram, e os juros subiram por quatro pregões seguidos. Na quinta-feira, como informou a Reuters, via UOL, a taxa para janeiro de 2028 estava em 12,88% no fim do dia, alta de 11 pontos-base.
O padrão por trás desses movimentos é a história: notícia ruim para Flávio empurra os juros para cima, notícia boa os puxa para baixo. A curva está negociando a urna.
O mercado já escolheu um lado, e esse é o risco
Boa parte do mercado presume que um governo Bolsonaro traria contas públicas mais enxutas, embora, como observa a Reuters, nem o candidato nem seus porta-vozes econômicos tenham apresentado propostas concretas de ajuste. É uma aposta em intenções. A dívida bruta passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 82,9% em agosto, então a preocupação é real. Mas precificar um ajuste que ainda não foi escrito é um salto de fé.
Um gestor da Fator, entrevistado pela Bloomberg Línea, disse exatamente isso. A gestora zerou suas posições em juros na segunda-feira após o primeiro turno porque, na visão dele, a vitória de Flávio já estava refletida nos preços, e ele não espera mais alívio sem novidades sobre o plano fiscal. Nossa leitura: até o cenário do vencedor oferece menos ganho do que se imagina, enquanto o cenário do perdedor ainda traz bastante risco de perda. Essa assimetria desaconselha concentrar a aposta em qualquer um dos lados.
Uma vitória de Lula doeria, mas a de Flávio pode não te salvar
Se Lula vencer, os juros podem voltar a subir em direção aos níveis do primeiro turno. As pesquisas colocam a disputa dentro da margem de erro: o Datafolha mostrou Flávio com 47% e Lula com 45% em meados de outubro, e a Quaest apontou diferença de um ponto esta semana. Um título prefixado comprado hoje perderia valor de mercado se você precisasse vendê-lo antes do vencimento.
Se Flávio vencer, o alívio talvez já esteja no preço. Os prefixados poderiam valorizar um pouco mais, mas o ganho depende de um plano fiscal que ainda não existe. O JPMorgan, segundo a Exame, fixou uma meta de 13% para o contrato de janeiro de 2037. É uma aposta tática de um banco, não uma promessa, e parece voltada a profissionais que usam derivativos.
A Selic, em 13,75%, acrescenta outra camada. O mercado espera um corte de 25 pontos-base em novembro, mas dezembro está em aberto e, segundo as reportagens, ligado ao resultado da eleição. Quem poupa não consegue cravar esse momento.
O que faríamos: dividir a exposição e apostar no carrego, não na previsão
Isto não é recomendação personalizada, e as regras tributárias e de produtos do Brasil se aplicam especificamente a quem poupa no país. Como abordagem geral, achamos sensata uma estrutura mista: títulos prefixados para travar os retornos altos de hoje e títulos atrelados à inflação para proteger num cenário em que juros e preços sigam teimosos. As reportagens apontam pressão inflacionária vinda do petróleo mais caro, com o Brent acima de US$ 110 o barril. Os prefixados se saem melhor se os juros caírem; os atrelados à inflação tendem a resistir melhor se não caírem.
O prazo também importa. Vencimentos longos reagem mais às expectativas fiscais e, por isso, oscilam mais. Escalonar os vencimentos, em vez de colocar tudo na ponta longa, reduz o custo de errar o momento.
O veredicto honesto: o segundo turno é um cara ou coroa com leve inclinação, e a curva já se inclinou. Para quem quer dormir bem no domingo à noite, manter os dois tipos de título, preservar alguma liquidez e esperar o orçamento real do próximo governo antes de formar uma opinião sobre o cenário fiscal parece o caminho mais prudente.
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