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O ouro não perde o brilho: as apostas em juros é que pesam

O ouro chegou à mínima de dois meses porque a inflação puxada pelo petróleo reforçou apostas em alta de juros. Seu papel de porto seguro segue de pé; comprar a queda seria a lição errada.

Publicado
22 de outubro de 2026
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Foto: U.S. Mint / Wikimedia Commons (Public domain)

Eis o ponto estranho da história do ouro nesta semana: o Oriente Médio está em chamas, o petróleo dispara, e o refúgio clássico do mundo cai mesmo assim. Se o ouro dependesse mesmo do medo, estaria em alta. Não está, e isso mostra o que o mercado realmente negocia.

Na quinta-feira, 22 de outubro, o ouro à vista caiu 1,9%, para US$ 4.060,37 por onça, o menor valor desde 4 de agosto, segundo a Reuters. O Brent subiu ao maior nível desde maio após novos ataques houthis na Arábia Saudita. Os dados de inflação ao consumidor e ao produtor nos EUA também vieram acima do esperado na semana passada, em grande parte por causa dos custos de energia.

Espera-se que o Fed mantenha os juros na reunião de 27 e 28 de outubro. Mas os investidores precificam cerca de 86% de chance de alta em dezembro, segundo a ferramenta FedWatch da CME, e o Goldman Sachs prevê um aumento de 25 pontos-base nessa data.

A história do porto seguro perdeu para a dos rendimentos

O ouro deveria proteger tanto do caos quanto da inflação. Os dois estão presentes. Ainda assim, os relatórios apontam o mecanismo: inflação em alta reforça a expectativa de juros elevados, e o ouro não paga juros. Quando títulos e outros ativos que rendem juros parecem mais atraentes, manter uma barra ou uma cota de ETF tem um custo.

Isso não é novidade. Um texto de junho de 2026 da Incred Markets descreveu o ouro na mínima de seis meses sob o mesmo padrão: petróleo em alta, temor de inflação em alta, expectativa de juros em alta. Na nossa visão, esse é o ponto-chave. Em poucos meses, o mercado escolheu duas vezes o canal dos juros em vez do canal do medo. A demanda por porto seguro não desapareceu. Ela está sendo vencida no voto.

Repare também que a prata caiu 3,9% e a platina 2,9% no mesmo dia. Uma venda generalizada de metais parece-nos mais uma reprecificação dos juros do que um veredicto sobre o papel do ouro na carteira.

Por que não correríamos atrás desta queda

A tentação é óbvia: preço menor, projeções otimistas de longo prazo. O Goldman Sachs, segundo uma página de projeções da GoldRepublic, tem meta de US$ 4.650 para o fim de 2026 e espera que uma política mais restritiva desacelere a alta do ouro, e não a reverta. Cuidado com isso. É uma projeção, de um site que também vende ouro, e já foi reduzida. Projeções não são piso.

Os catalisadores de curto prazo são conhecidos e pesam contra os compradores. Os dados de inflação PCE saem em 29 de outubro, e Hamad Hussain, da Capital Economics, alertou que um tom duro do Fed "pode pesar sobre os preços do ouro". Os investidores também observam os US$ 4.000 como limite. Giovanni Staunovo, do UBS, vê consolidação com alta limitada enquanto durar o conflito no Oriente Médio, e Peter Grant, da Zaner, disse que o viés continua de baixa. São opiniões, não certezas, mas convergem.

Portanto, o fator real a acompanhar é o petróleo. Se o barril continuar alimentando a inflação, o Fed provavelmente manterá a postura dura e o ouro seguirá pressionado. Se os temores de oferta diminuírem, a pressão pode aliviar rápido. Isso faz do ouro menos uma aposta no caos e mais uma aposta na trajetória do petróleo e dos juros, uma operação bem mais difícil do que supõem a maioria dos que compram na queda.

Nosso veredicto

Não leia a queda como prova de que o ouro falhou como proteção, nem como um presente. Se você tem ouro para diversificar, nada nesta semana muda o motivo de tê-lo. Se a tentação de comprar mais por estar "barato" bater, defina de antemão o tamanho da posição, considere diluir as compras ao longo do tempo em vez de entrar de uma vez e lembre-se de que a próxima semana traz uma reunião do Fed e um dado de inflação. Esperar por eles custa pouco. Isto não é aconselhamento pessoal, apenas um lembrete de que o preço do ouro agora responde primeiro ao petróleo e aos juros.

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