A pausa esperada da Selic é um veredicto fiscal, não monetário
O mercado agora aposta que o Copom vai interromper os cortes após a disparada do dólar. A lição: crédito barato depende de credibilidade fiscal, então não planeje contar com juros menores logo.
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Quem realmente define a taxa de juros do Brasil: o comitê do Banco Central ou a planilha do governo? A reunião desta semana do Copom é um bom teste, e o mercado já adivinhou a resposta.
O Copom se reúne na quarta-feira, 4 de novembro, com a Selic em 13,75%. Segundo a CNN Brasil, um corte de 0,25 ponto percentual era a aposta majoritária antes do segundo turno. Depois dele, as opções de Copom da B3 passaram a apontar a manutenção como o desfecho mais provável, com probabilidade implícita entre cerca de 63% e 69%, dependendo da data da captura. Quanto ao dólar, a InfoMoney observa que a moeda saiu de menos de R$ 5 para R$ 5,40 no primeiro pregão após a reeleição do presidente Lula e fechou a R$ 5,44 em 30 de outubro, o maior nível de 2026.
A pausa é o preço da dúvida
A desaceleração da atividade, sozinha, não explica isso. Itaú e Goldman Sachs veem a economia esfriando, e, nos manuais, isso argumenta a favor de cortes. O freio parece ser outro: expectativas, petróleo e risco fiscal. O Itaú espera que o Copom reconheça que as expectativas de inflação estão se afastando ainda mais da meta, e o HSBC alerta que o principal risco é que essas expectativas se desancorem por completo.
Por isso lemos essa pausa como um veredicto fiscal. A Goldman Sachs diz que os compromissos fiscais assumidos durante a campanha pioraram o quadro das contas públicas, com efeitos sobre a demanda, o câmbio e as expectativas de inflação. O HSBC acrescenta que medidas claras de contenção de gastos são improváveis antes das reuniões de novembro e dezembro. Na nossa avaliação, um banco central não pode cortar juros diante de uma moeda em queda e de expectativas em alta sem arriscar a própria credibilidade. Então ele espera, e esperar é o sinal mais barato de que dispõe.
A divergência parece limitada. O Inter ainda vê um corte de 0,25 ponto, e a Goldman dá a ele 30% de chance, mas a maioria das instituições espera manutenção. Acreditamos que o debate de verdade é sobre quanto tempo a pausa vai durar, não sobre se haverá pausa.
Não coloque crédito barato no orçamento
O ponto prático é para famílias e empresas. Antes da votação, o boletim Focus ainda projetava a Selic em 13,25% no fim de 2026. Esse número já está defasado, pois a pesquisa colheu as respostas antes do segundo turno. O HSBC projeta juros inalterados até março de 2027 e 12,50% no fim de 2027. O C6 Bank vê 13,75% no fim dos dois anos. Evandro Xavier, da be.smart, espera que os cortes só sejam retomados no segundo ou terceiro trimestre do ano que vem, com a Selic em 13% no fim de 2027. São projeções, e divergem entre si, mas nenhuma delas descreve dinheiro barato no curto prazo.
Para quem pretende tomar crédito, nosso conselho é simples: não adie uma decisão de financiamento necessária na esperança de uma queda de juros que o próprio mercado já não espera. E não presuma que um corte seria repassado integralmente; uma das fontes que analisamos observa que o repasse aos empréstimos não é imediato nem proporcional. Para quem poupa, juros altos são uma boa notícia no curto prazo, mas refletem risco, não generosidade. Suspeitamos que o mesmo risco fiscal esteja por trás do salto do dólar.
Nesse ponto, um toque de cautela. Gestores consultados pela InfoMoney concordam que a exposição cambial deve vir de um planejamento de longo prazo, e não do pânico, e Ian Cao, da Gama Investimentos, argumentou que quem correu para o dólar no susto já está no prejuízo. É uma opinião sobre operações de curto prazo, não uma previsão. A conclusão justa, a nosso ver, é que correr atrás do dólar depois de uma disparada é o espelho de esperar por um corte da Selic que não virá.
O contra-argumento mais barulhento também é o mais frágil agora
Há uma visão contrária séria. Um manifesto de 50 economistas, noticiado pelo planetaosasco.com, argumenta que o pagamento de juros é o verdadeiro problema fiscal e que o banco central não deveria elevar a taxa. André Lara Resende defende uma tese parecida, a de que o Banco Central agrava o desequilíbrio, e, segundo o Valor Econômico, a tese foi elogiada por Gleisi Hoffmann.
O argumento de que o custo dos juros pesa sobre a dívida não é leviano. Mas, na nossa visão, ele ignora a sequência. Os juros só podem cair de forma sustentável quando os investidores acreditam que a trajetória da dívida está sob controle. Pressionar o banco central a cortar primeiro inverte a ordem, e a moeda provavelmente reagiria como reagiu na semana passada.
Nosso veredicto
Observe o comunicado de quarta-feira mais do que o número. Se o Copom detalhar o que precisa melhorar, esse é o verdadeiro mapa do crédito. Até que a equipe econômica e o arcabouço fiscal ganhem forma, planeje-se como se a Selic continuasse alta. Se o governo entregar medidas críveis, o mercado provavelmente perceberá rápido, e aí você poderá rever seus planos. Antes disso, não.
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