O real a R$ 5 não é veredicto eleitoral: é um negócio nervoso
O dólar ronda R$ 5 na véspera do segundo turno, mas nervosismo, posicionamento e fatores globais embaralham o sinal. Tratar o câmbio como oráculo eleitoral é um erro.
Foto: Central Bank of Brazil / Wikimedia Commons (Public domain)
Quando uma moeda se fortalece na véspera de uma votação, é tentador interpretar isso como o mercado nos dizendo quem vai ganhar. Nós resistiríamos a essa leitura. O real rondando R$ 5 por dólar na véspera do segundo turno de domingo é um dado sobre nervosismo, posicionamento e fatores globais. Não é uma previsão do resultado.
Até o nível de fechamento da semana depende da fonte
Os relatos divergem um pouco sobre onde a semana terminou. Segundo a Pro Farmer, o real fechou a sexta-feira logo abaixo de 5 reais por dólar, após uma alta de quase 5% depois do desempenho surpreendente de Bolsonaro no primeiro turno, em 5 de outubro, quando a cotação estava em 5,212 pouco antes daquela votação. O Trading Economics, por sua vez, mostrava o real por volta de 5,045 antes do segundo turno, cedendo levemente em meio à incerteza. A disputa coloca frente a frente o senador Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a votação é hoje, 25 de outubro.
Portanto, chame de um pouco abaixo ou um pouco acima de R$ 5, o movimento é em parte um retorno a um nível já visitado. Esse é o primeiro motivo para não tratá-lo como notícia sobre o resultado.
A moeda tem oscilado, não decidido
A trajetória desde o primeiro turno não é uma aposta de mão única. Os dados do Rio Times mostram o dólar a R$ 4,9871 em 12 de outubro, R$ 5,0970 em 15 de outubro e R$ 5,0627 em 16 de outubro. Uma nota do Societe Generale, divulgada pela TMGM, disse que o real havia perdido 3% desde sua máxima pós-eleição, com compradores surgindo em 5,10.
Uma moeda que oscila cerca de 2% em poucos dias não expressa certeza. Para nós, parece uma multidão ajustando posições, e a cobertura brasileira de 19 de outubro descreveu aquele dia em termos semelhantes: ajustes de posição e cautela dos investidores antes da votação. Achamos que uma cotação perto de R$ 5 diz mais sobre quantas pessoas já estão inclinadas para um lado do que sobre o que os eleitores farão.
Fatores globais embaralham o sinal
Os ativos brasileiros podem reagir a commodities e ao dólar global sem qualquer ligação com a urna. Em 19 de outubro, por exemplo, a cobertura brasileira associou a queda do dólar a uma moeda americana mais fraca frente a pares emergentes e a um recuo do petróleo, além da expectativa eleitoral. E a Vesper News cita um alerta da Wolfe Research de que preços elevados do petróleo poderiam levar bancos centrais a erros de política, com os mercados emergentes, em especial a América Latina, sinalizados. Quando um movimento tem uma história eleitoral e uma história global associadas, a análise honesta deve admitir que não dá para separá-las com nitidez.
Há ainda o quadro das pesquisas. As pesquisas indicam empate estatístico, segundo a Pro Farmer, enquanto os mercados de apostas favorecem claramente Bolsonaro: a Polymarket o precificava em 78,9% nesta manhã, segundo a página do Rio Times. Mercados de previsão são apostas, não pesquisas, e o primeiro turno já desafiou as pesquisas pré-eleitorais. É um lembrete de que um consenso confiante já errou neste mesmo ciclo.
Não negocie com base em um resultado que você não pode saber
Mesmo uma vitória de Bolsonaro não garante alta da moeda. Thierry Wizman, do Macquarie, disse que ele é percebido como mais favorável ao mercado, mas observou que herdaria gastos obrigatórios crescentes, altos custos do serviço da dívida e pouca flexibilidade orçamentária. Se o mercado já pagou pela boa notícia, achamos que o risco pende para a decepção. Um resultado diferente, por outro lado, poderia provocar uma forte oscilação no sentido contrário, e a Vesper observa que um resultado decisivo em qualquer direção poderia desencadear um movimento cambial maior.
Nossa visão, que não é recomendação pessoal: não monte uma posição em câmbio partindo da premissa de que você conhece o resultado da eleição, e não leia R$ 5 como linha de chegada. A Selic a 13,75%, segundo a Pro Farmer, mantém o real atraente para o carry, mas isso é um motivo para a moeda encontrar suporte, não para ter certeza.
Para quem tem exposição ao Brasil por meio de fundos ou ações, a pergunta útil não é quem ganha, mas quanto risco cambial você se sente confortável em carregar durante um período volátil. Esperamos gaps na segunda-feira, qualquer que seja o resultado, e trataríamos o movimento em torno de R$ 5 como ruído que calhou de parecer um veredicto.
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