A queda do EWZ é manchete, não veredito: não opere em cima dela
A queda de quase 20% no after-market do principal ETF do Brasil reflete uma operação lotada sendo desfeita, não um julgamento final do mandato de Lula. Importam mais o pregão de segunda e os sinais fiscais.
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Uma queda de 20% em uma só noite é um veredito do mercado ou só um jeito bem barulhento de dizer "nós erramos"? Nós ficamos com a segunda opção. Quando o maior ETF do Brasil nos EUA despenca após uma surpresa eleitoral, o número é dramático, mas mede mais o quanto os investidores estavam mal posicionados do que o valor real do Brasil.
Luiz Inácio Lula da Silva venceu o quarto mandato sobre Flávio Bolsonaro. Segundo o Investor's Business Daily, o iShares MSCI Brazil ETF (EWZ) caiu quase 20% no início da segunda-feira na Robinhood, com a Petrobras recuando 16%. No exterior, um ETF do Ibovespa listado em Tóquio caiu 13%, de acordo com a Bloomberg Línea, e o dólar subiu cerca de 10% nos futuros da CME, para aproximadamente R$ 5,52.
Repare na dispersão: os relatos vão de 13% a quase 20%, e um veículo chega a citar 27% antes da abertura. Mercados finos e fora do horário geram cotações bagunçadas. Só isso já deveria nos deixar cautelosos em tratar qualquer número isolado como "a" reação.
A queda é, em boa parte, a ressaca da festa do primeiro turno
Lembre-se do que veio antes. Depois do primeiro turno, o Ibovespa saltou 7,7% em um único pregão e o dólar caiu para cerca de R$ 5, segundo O Globo. Desde agosto, o índice havia subido 15,3%, na conta da Folha. O mercado passou semanas precificando uma troca de poder.
Visto assim, o tombo de domingo à noite é em grande parte o desmonte de uma aposta. Gabriel Pinheiro, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, explicou em termos de assimetria: o mercado comprou a tese da alternância durante todo outubro, e a vitória de Lula o obriga a desfazer boa parte dela. Uma pesquisa do Citi citada pela InfoMoney mostrou que 79,5% dos entrevistados esperavam uma queda do Ibovespa de mais de 5% com a vitória de Lula. Quando quase todo mundo espera o mesmo movimento, achamos que boa parte dele já está no preço na manhã de segunda, e o risco de exagero vale para os dois lados.
Além disso, um ETF listado nos EUA não é o Ibovespa. A IBTimes faz essa ressalva sobre o fundo de Tóquio: a queda dele não significava que o índice de referência já tivesse recuado o mesmo percentual. Achamos que a mesma cautela vale para o EWZ, que acompanha o índice MSCI Brazil e negocia enquanto o mercado brasileiro está fechado. É o termômetro, não o paciente.
O teste real é fiscal e leva semanas
Tirando o efeito do posicionamento, a preocupação de fundo é genuína: dívida pública de 82,9% do PIB, segundo a Forbes Brasil, e um presidente sem maioria própria no Congresso. Os estrategistas do Citi dizem que os primeiros sinais sobre a equipe econômica, o plano de controle de gastos e a capacidade de negociar com o Congresso vão decidir se a reação será passageira ou duradoura. As fontes da Forbes Brasil apontam para a escolha do ministro da Fazenda e o compromisso com o arcabouço fiscal. A IBTimes acrescenta a proposta de orçamento de 2027.
Esta é a nossa opinião: o fechamento de segunda dirá pouco sobre isso. Uma paralisação por circuit breaker, uma queda de 5% ou uma recuperação surpreendente são todas possíveis, e nenhuma resolveria a questão fiscal. A informação melhor chega nas semanas seguintes, quando nomes e números substituírem a especulação. Um analista, Luccas Fiorelli, esperava justamente esse tipo de reação em etapas: primeiro o resultado, depois a equipe econômica e as medidas fiscais entre novembro e dezembro. Esse era o cenário dele para outro desfecho, mas achamos que a lógica da sequência se mantém.
O programa de governo, como a Forbes o descreve, mantém o arcabouço fiscal, mas não fixa meta nem prazo para a redução dos juros. É vago o bastante para que os investidores exijam provas, não promessas. Também trataríamos o ruído político, incluindo o relato da IBTimes de que Bolsonaro se recusou a reconhecer a derrota, como mais uma fonte de volatilidade, não como uma tese.
Não venda em pânico, nem banque o herói no repique
Para o investidor pessoa física, a lição prática é sobre comportamento, não sobre previsão. Vender em cima de uma cotação noturna com pouca liquidez pode travar um preço que nunca estará disponível no pregão regular. Comprar "a queda" no primeiro movimento é o erro espelhado: você estaria apostando que o exagero acabou antes mesmo de os sinais fiscais aparecerem.
Previsões são só isso. Bancos e analistas ofereceram cenários, não certezas, e muitas dessas mesmas vozes estavam confiantemente otimistas depois do primeiro turno. Visões setoriais, como a de que exportadoras aguentam melhor do que varejistas e construtoras, são hipóteses razoáveis, não promessas.
Nosso veredito: trate o número do EWZ como uma manchete sobre posicionamento. Acompanhe o pregão brasileiro e depois o ministro da Fazenda e o orçamento de 2027. Se o seu plano era sólido antes de domingo, provavelmente ainda é. Se só funcionava com um resultado eleitoral, essa é a verdadeira lição, e isto não é recomendação de investimento, apenas um lembrete para dimensionar as posições contando com a possibilidade de errar.
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