O choque de 250 pb nos DIs é lição de duration, não manchete sobre Lula
Os juros dos DIs dispararam após a reeleição de Lula, mas a pergunta que importa ao poupador brasileiro é quanto tempo dura o título e a que ele está indexado, não quem ganhou.
Imagem gerada por IA
A eleição brasileira acabou de quebrar a renda fixa ou apenas lembrou a todo mundo o que é um título? A versão barulhenta da história é que os juros subiram mais de 250 pontos-base em uma semana. A versão útil é mais discreta: se você tem um título prefixado longo, o preço dele acabou de mostrar quanto tempo ele dura.
A manchete é real, mas não é um número só
Vamos ao que aconteceu. Como o InfoMoney informou, com dados da Reuters, as taxas dos DIs fecharam a primeira semana após o segundo turno com altas acumuladas de mais de 250 pontos-base em alguns vencimentos. O contrato para janeiro de 2028 subiu 164 pontos-base na semana, a 14,5%. O contrato para janeiro de 2035 subiu 259, a 15,33%. Os investidores foram surpreendidos pela vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, até então o favorito da Faria Lima, e agora aguardam para saber quem comandará o Ministério da Fazenda e como será o plano fiscal.
Repare na nuance. "Mais de 250" vale para alguns vencimentos: o mais longo do exemplo acima passa dessa marca, e o mais curto não. Isso importa, porque a dor numa carteira de títulos tende a ser proporcional à distância em que você está na curva.
Quem sofreu foi decidido pela duration, não pela ideologia
Os números do Tesouro Direto mostram isso melhor que qualquer comentarista. Segundo o InfoMoney, o Prefixado 2032 foi de 12,89% para 15,38% entre o fechamento de 23 de outubro e o de 30 de outubro. São 2,49 pontos percentuais. Os títulos atrelados à inflação se moveram menos: o IPCA+ 2032 passou de IPCA + 6,72% para IPCA + 7,89%, e o IPCA+ 2050, de IPCA + 6,42% para IPCA + 7,27%.
A nossa leitura: taxa mais alta significa preço de mercado mais baixo, e um título mais longo cai mais a cada ponto de taxa. O prefixado não tem nada que amorteça isso, porque a taxa dele está travada. Já o título indexado à inflação ao menos carrega a correção inflacionária por cima do rendimento real. Ele não é imune, mas a tabela sugere que sofreu menos. É uma diferença estrutural, não política.
A segunda coisa a separar é a perda no papel da perda realizada. Se você leva o título até o vencimento, o choque significa que o dinheiro novo rende mais, e a sua compra antiga apenas parece pior na tela. Se vende em pânico, você cristaliza a queda. A reportagem do InfoMoney lembra que os prefixados tiveram na segunda-feira a maior alta diária da história e que o Tesouro cancelou seus leilões de venda e fez três recompras que somaram cerca de R$ 31,6 bilhões. É o tipo de semana que tenta as pessoas a fazer exatamente a coisa errada: vender no meio do susto.
O mercado precifica risco fiscal, não uma mudança na economia
Rafael Sueishi, head de renda fixa da Manchester Investimentos, argumentou que a eleição não mudou a inflação nem a atividade de um dia para o outro. O que mudou, na visão dele, foi a percepção de risco em torno da trajetória das contas públicas. Achamos o argumento convincente, e os dados ao redor o sustentam. O desemprego caiu para 5,2% no terceiro trimestre, em linha com as previsões, longe de ser sinal de recessão. Enquanto isso, a dívida bruta chegou a 82,93% do PIB em setembro, o maior nível em mais de cinco anos, e o déficit nominal em 12 meses ficou em 9,51% do PIB.
Há também um efeito colateral na política monetária. Segundo a cobertura da Reuters no InfoMoney, a precificação das opções sobre a decisão do Copom mostrava, até quarta-feira, 66,5% de chance de manutenção da Selic em 13,75%, contra 32% para um corte de 25 pontos-base. Em 23 de outubro, antes do segundo turno, eram 17,5% para manutenção e 76% para corte. Ou seja, o mercado em boa parte deixou de apostar em afrouxamento. Se você contava com a queda dos juros para valorizar seus títulos, esse roteiro mudou em uma semana.
Cuidado com as projeções aqui. Nenhum ministro da Fazenda foi nomeado, e, segundo reportagens citadas pelo InfoMoney, a escolha pode não sair antes de dezembro. Um sinal fiscal crível poderia trazer de volta a ponta longa para baixo. Um sinal fraco poderia empurrá-la ainda mais para cima. Ninguém na documentação sabe qual dos dois virá, e nós também não.
O que o poupador deve fazer na prática
Isto não é recomendação personalizada, e regras, impostos e produtos variam de país para país. Vale apenas para instrumentos brasileiros. Feita essa ressalva, sugerimos três verificações em vez de qualquer operação:
- Confira a duration. Você sabe o vencimento de cada título prefixado que tem e quando pode precisar do dinheiro? Se a resposta é "2035" e a necessidade é "2027", o problema é o descasamento, não a eleição.
- Confira a indexação. Papéis prefixados, atrelados à inflação e atrelados à Selic se comportam de forma diferente quando a preocupação fiscal aumenta. Saiba qual deles você tem e por quê.
- Confira o seu comportamento. Uma semana como essa testa se a posição cabe no seu horizonte de tempo. Se não cabe, corrija o plano num dia de calma, não no auge do susto.
Nosso veredicto: os 250 pontos-base são um alerta justo sobre risco fiscal, mas um mau motivo para agir por instinto. A manchete reprecifica todos os títulos, mas só machuca o poupador que não sabia o que tinha na carteira.
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