A queda no Brasil é um reajuste de risco fiscal: sem pânico e sem bancar o herói
Dólar a R$ 5,44 e Ibovespa em queda de 18,12%: o mercado está cobrando pelo risco fiscal. Quem poupa deve reequilibrar câmbio e juros, não vender tudo nem apostar no fundo do poço.
Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Um mercado que cai mais de 18% está dizendo que o Brasil quebrou ou apenas que estava precificado para outro resultado eleitoral? Achamos que é, sobretudo, a segunda opção, e a diferença define o que um poupador sensato deve fazer agora.
Os números são duros. Segundo a Gazeta Digital, o dólar fechou a R$ 5,44, sua maior alta semanal desde 2008, enquanto o Ibovespa caiu 18,12%. O pior momento veio na segunda-feira, após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva: um levantamento aponta o índice fechando em queda de 13,88%, a 176.608 pontos, depois de um circuit breaker interromper as negociações, e a Reuters descreveu as perdas mais fortes em anos para as ações e o real, revertendo apostas anteriores em uma vitória da direita.
O mercado cobra pelo risco fiscal, não pela eleição em si
Repare no que se mexeu: o câmbio, as ações e, segundo o Valor International, os contratos futuros de dólar, de juros e do Ibovespa, tudo ao mesmo tempo, com a B3 ampliando os limites de oscilação várias vezes. Essa é a assinatura de um país sendo reprecificado, não de uma empresa que decepcionou. O fio condutor é a dívida pública. A Shafaqna informa que a dívida subiu mais de 11 pontos percentuais sob Lula, para 82,9% do PIB, e que o ministro das Relações Institucionais, Jose Guimaraes, disse que o ajuste fiscal "não foi discutido, não está sendo discutido e certamente não está sendo discutido dentro da nossa bancada".
Soma-se a isso a reta final da campanha. Segundo a The Week, resumindo a imprensa brasileira, nas últimas três semanas o PT acelerou gastos de R$ 354 bilhões em medidas anunciadas ao longo do último ano, e Lula enfrentará um Congresso de perfil conservador. Nossa leitura: os investidores não precisam acreditar em catástrofe. Basta concluírem que o cenário em que apostavam, vitória da direita e rumo fiscal mais apertado, saiu da mesa. Só isso já justifica um prêmio de risco maior, e um real mais fraco vem na sequência.
Uma parte disso também é desmontagem de posições. O dólar subiu apenas 1,05% ao longo de todo o mês de outubro, segundo uma manchete do Rondônia Dinâmica, o que sugere que o real vinha forte antes do choque. Uma queda brusca pode ser, em parte, o mercado devolvendo muito otimismo.
Vender em pânico crava o reajuste; caçar o fundo aposta em uma resposta política que ninguém tem
As duas reações tentadoras são fracas. Vender tudo depois de uma queda de 18% transforma uma perda no papel em perda definitiva, e justamente quando boa parte das más notícias já está no preço. Mas também desconfiamos do trade do herói, comprar com agressividade porque "tem que voltar a subir". Um repique precisa de um gatilho, e os únicos sinais visíveis até agora apontam no sentido contrário: um ministro dizendo que o ajuste nem está em discussão e um país dividido. Isso não significa que os preços não possam se recuperar. Significa que ninguém sabe dizer quando, e nós também não.
O que podemos dizer é que o próximo capítulo é de política econômica, não de eleição. Fique de olho em qualquer sinal fiscal crível, ou na ausência dele. Até lá, esperamos volatilidade alta e trataríamos qualquer rali forte como não confirmado.
Reequilibre as exposições, não a convicção
A pergunta útil não é "Brasil, sim ou não?", e sim "a que, de fato, estou exposto?". Três pontos se destacam, e isto é raciocínio geral, não recomendação personalizada:
- Câmbio. Quem tem renda e gastos em reais e todos os ativos em reais carrega uma única aposta. Quem tem ativos atrelados ao dólar está do outro lado dessa aposta. Nenhum dos dois deve tratar a última semana como permanente; o ponto é saber de que lado você está e se isso é intencional.
- Juros. Dúvidas fiscais elevam o custo de financiamento do governo, como observa a Shafaqna. Isso prejudica, no curto prazo, os títulos prefixados longos e pode fazer instrumentos de prazo mais curto ou pós-fixados parecerem mais firmes. Também torna novas compras de renda fixa mais atraentes do que eram uma semana atrás, se você considera o prêmio de risco justo.
- Concentração. Se uma posição em ações brasileiras virou fatia desproporcional do seu patrimônio durante a alta anterior, esta semana lembra por que o tamanho da posição importa mais do que a escolha de papéis.
Voltar a uma alocação-alvo definida antes da queda é o único movimento que não é pânico nem especulação. Ele obriga a reduzir o que resistiu e a aumentar o que caiu apenas se o seu plano mandar, e elimina a tentação de adivinhar o fundo. O tratamento tributário e regulatório de qualquer mudança desse tipo depende da sua situação e das regras no Brasil, então confira antes de agir.
Nosso veredito: trata-se de um reajuste legítimo do risco fiscal, provavelmente não o último, que premia a disciplina e não o drama. Defina de propósito sua combinação de câmbio e juros, mantenha posições pequenas o bastante para dormir tranquilo até a próxima manchete e deixe que os primeiros sinais fiscais do governo, e não a adrenalina da noite eleitoral, guiem qualquer mudança maior.
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